Futuro do Varejo e do Consumo no Brasil em 2026
Author
Giovanni Cocco
Date Published

TL;DR Em 2026, o varejo brasileiro entra numa fase de “consumo cauteloso + disputa por eficiência”: juros ainda altos, endividamento recorde e crédito mais seletivo mantêm o consumidor racional e hiper-sensível a preço, enquanto a renda real melhora de forma desigual e impulsiona oportunidades regionais (interiorização e Nordeste em alta). O omnichannel deixa de ser promessa e vira requisito operacional (preço/estoque/atendimento unificados), com marketplaces consolidando concentração (Meli lidera) e social commerce/lives ganhando tração, especialmente em Gen Z. A loja física não morre: vira hub de experiência, retirada, serviços e logística — e também mídia (retail media in-store). IA e dados saem do hype para uso prático em previsão de demanda, sortimento, personalização, automação e precificação; retail media e monetização de dados viram novas fontes de margem. Pix domina o “à vista”, parcelamento segue relevante porém mais curto e criterioso; open finance começa a reconfigurar concessão e portabilidade de crédito. O estudo fecha com três cenários (conservador, base e otimista) e implicações claras para varejistas grandes, médios e pequenos — destacando riscos (margem, inadimplência, dependência de marketplaces) e oportunidades (expansão regional, eficiência, dados/ads, formatos híbridos).
Macrotendências Econômicas em 2026
Evolução da taxa básica de juros (Selic) e da inflação anual (IPCA) no Brasil de 2019 a 2026 (Projeção). O cenário de juros altos e crédito caro tende a moderar o crescimento econômico (PIB ~1,5-2% em 2026) e manter o custo do capital elevado.
1{2 "chartType": "line",3 "title": "Cenário Macro: Inflação Controlada vs. Juros Resistentes",4 "data": {5 "labels": ["2021 (Pico)", "2023", "2024", "2025 (Est.)", "2026 (Proj.)"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Taxa Selic (% a.a.)",9 "data": [9.25, 13.75, 11.25, 12, 10.5],10 "borderColor": "#ef4444",11 "borderWidth": 3,12 "tension": 0.313 },14 {15 "label": "Inflação IPCA (% a.a.)",16 "data": [10.06, 4.62, 4.10, 4.20, 4.10],17 "borderColor": "#3b82f6",18 "borderWidth": 3,19 "tension": 0.320 }21 ]22 },23 "source": "Banco Central do Brasil, Boletim Focus (2025)"24}
Mesmo com a política monetária restritiva, alguns fundamentos mostram melhora recente. A renda média real dos brasileiros subiu e a desigualdade recuou ao menor nível histórico em 2024.
Mesmo com a política monetária restritiva, alguns fundamentos mostram melhora recente. A renda média real dos brasileiros subiu e a desigualdade recuou ao menor nível histórico em 2024, impulsionadas pelo mercado de trabalho aquecido e programas sociais3. O rendimento médio domiciliar per capita atingiu R$ 2.020 mensais em 2024 (alta de 4,7% sobre 2023), com a metade mais pobre da população vendo sua renda subir 8,5% (a R$ 713 mensais) graças ao aumento do emprego formal e do Bolsa Família34. Apesar do avanço, isso ainda significa que 108,5 milhões de brasileiros viveram com apenas R$ 23,77 por dia em 20244 – um indicativo de quão restrito é o orçamento de grande parte das famílias. Ou seja, há simultaneamente um leve aumento do poder de compra médio e uma base ampla de consumidores de baixa renda, o que mantém alta a sensibilidade a preços baixos e a necessidade de crédito subsidiado.
Por outro lado, o endividamento das famílias brasileiras atingiu recordes preocupantes. Em outubro de 2025, 79,5% das famílias declaravam possuir dívidas – maior patamar da série histórica iniciada em 20105. A inadimplência também cresceu: cerca de 30,5% das famílias estavam com contas em atraso (90+ dias) e 13,2% afirmavam não ter condições de pagar dívidas em atraso, permanecendo inadimplentes5. Quase 1 em cada 5 famílias (19,1%) tinha mais da metade da renda comprometida com dívidas6. Esse sobre-endividamento limita a capacidade de consumo a prazo e força ajustes no orçamento familiar, impactando principalmente as compras de bens duráveis e não-essenciais7. Nem mesmo a melhora do emprego foi suficiente para conter a inadimplência, dado o nível dos juros – observa a CNC – e o comércio já sente a desaceleração das vendas, especialmente em datas como Black Friday e Natal7. Em suma, a combinação de juros altos e alto endividamento deve manter o consumo das famílias em ritmo moderado em 2026, com cautela para novos créditos.
Do ponto de vista regional, o consumo brasileiro vem passando por uma interiorização e reequilíbrio regional. O Sudeste ainda lidera, concentrando cerca de 48% do mercado consumidor, mas o Nordeste retomou em 2025 a posição de segunda maior região consumidora, ultrapassando a região Sul[\[8\]\9\]. Impulsionado por investimentos e pelo avanço de cidades médias do interior, o Nordeste alcançou R$ 1,51 trilhão em consumo anual (18,6% do total nacional) em 202510. Enquanto isso, as capitais e regiões metropolitanas perderam participação para o interior: mais de 55% do consumo das famílias já ocorre fora dos grandes centros11. Municípios do interior da Bahia, Pernambuco e outras áreas com polos logísticos e agroindustriais em expansão estão puxando esse crescimento descentralizado12.
1{2 "chartType": "bar",3 "title": "Geografia do Consumo 2025: A Ascensão do Nordeste",4 "data": {5 "labels": ["Sudeste", "Nordeste", "Sul", "Centro-Oeste", "Norte"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Share de Consumo (%)",9 "data": [48.2, 18.6, 17.5, 9.1, 6.6],10 "backgroundColor": ["#3b82f6", "#10b981", "#94a3b8", "#f59e0b", "#94a3b8"]11 }12 ]13 },14 "source": "IPC Maps 2025 / Análise JP Insights"15}
Para o varejo, isso implica oportunidades de expansão geográfica (novas lojas e centros de distribuição em cidades interioranas) e a necessidade de adaptar sortimento e estratégias a diferenças regionais.
Em resumo, o macroambiente de 2026 será desafiador, marcado por juros reais elevados, crédito caro e seletivo, e consumidores ainda cautelosos após um ciclo de inflação e endividamento. Entretanto, há vetores positivos como a recuperação gradual da renda real, o impulso de gastos sociais e o dinamismo de regiões emergentes que podem sustentar um crescimento modesto do consumo. Executivos devem planejar com base em cenários econômicos distintos (ver Cenários Prospectivos adiante) – garantindo resiliência financeira para o pior caso (consumo estagnado) sem perder de vista oportunidades de expansão em nichos e regiões no cenário otimista.
Comportamento do Consumidor Brasileiro
Após atravessar um período de inflação alta e crédito abundante seguido de crédito escasso, o consumidor brasileiro de 2026 apresenta uma mentalidade mais resiliente, porém extremamente cautelosa e criteriosa. Pesquisas recentes indicam que a maioria dos consumidores está preocupada em economizar e priorizar gastos essenciais. Cerca de 43% dos brasileiros se enquadram no perfil de “cautelosos”, controlando onde gastam e buscando poupar sempre que possível15. A inflação de alimentos continua sendo a principal preocupação (citada por 35%), e quase um terço (29%) sente que sua situação financeira piorou em relação ao ano anterior15 – reflexo do peso dos preços altos e dívidas no bolso. Itens não-essenciais estão sendo despriorizados: 44% planejam reduzir gastos com entretenimento fora de casa e 41% até mesmo com lazer dentro de casa16. Muitos também pretendem diminuir suas economias (40%) e postergar melhorias domésticas16, evidenciando que o consumidor médio está “apertando os cintos” e consumindo somente onde vê valor real.
Essa cautela financeira se traduz em hábitos de compra mais racionais e intencionais. Frente à alta de preços, os brasileiros adotaram em massa estratégias de “trade-down”.
1{2 "chartType": "doughnut",3 "title": "Ajuste de Comportamento do Consumidor (2025/26)",4 "data": {5 "labels": ["Mantiveram Hábitos", "Trade-down (Marcas Baratas)", "Reduziram Volume/Qtd", "Trocaram de Loja/Site"],6 "datasets": [7 {8 "label": "% de Consumidores",9 "data": [19, 33, 40, 37],10 "backgroundColor": ["#e2e8f0", "#ef4444", "#f97316", "#3b82f6"]11 }12 ]13 },14 "source": "McKinsey Consumer Sentiment 2025"15}
O Brasil lidera globalmente nesse quesito de troca por marcas mais baratas, mostrando quão sensível a preço está o consumidor local17. Ou seja, o consumidor pós-crise está menos leal e mais oportunista, caçando promoções e migrando para marcas próprias.
A sensibilidade a preço atingiu níveis máximos, mas isso não significa que marca e propósito foram descartados – apenas foram reordenados na equação de valor. O consumidor brasileiro vem ficando mais consciente e exigente quanto aos valores das empresas. Uma pesquisa da Accenture mostrou que 83% dos brasileiros preferem comprar de marcas cujos valores se alinham aos seus próprios valores e causas19. Especialmente consumidores mais jovens (Gen Z e millennials) demonstram engajamento com temas como sustentabilidade, diversidade e responsabilidade social – cobrando coerência das empresas. Porém, é importante notar que propósito não significa tolerância a preços altos: muitos querem empresas responsáveis, mas não estão dispostos a pagar muito a mais por isso. De fato, **62% dos consumidores deixam de comprar de marcas que falham em cumprir as promessas de valor ou propósito que pregam20*, o que indica que autenticidade e preço justo andam juntos. Em termos práticos, marcas com propósito claro (ambiental, social, etc.) ganham preferência *quando conseguem entregar qualidade e preço competitivo equivalente. Propósito virou fator de desempate, mas dificilmente compensará um diferencial grande de preço no cenário atual. Ainda assim, existe um nicho crescente de consumidores de renda média/alta dispostos a investir em produtos sustentáveis ou de empresas éticas, contanto que vejam nisso um reflexo de suas identidades – esse público valoriza experiências e significado tanto quanto o produto em si.
Vale destacar as diferenças geracionais e de renda no comportamento de consumo em 2026\. A Geração Z (hoje na faixa de 18-26 anos) é altamente conectada e digital-first: 87% descobrem produtos no Instagram e 80% no TikTok, mostrando o enorme papel das redes sociais em sua jornada de compra21. Esses jovens consumidores tendem a ser menos leais a marcas estabelecidas, buscam novidades e são influenciados por creators/influenciadores – 29% trocariam de marca se um influenciador recomendasse outra nas redes sociais22. Ao mesmo tempo, Gen Z tem orçamento limitado e é conhecida por “comprar com propósito”, escolhendo marcas alinhadas a causas (ex.: cruelty-free, apoiadoras de minorias), embora dentro do seu alcance financeiro. Já os Millennials (27-42 anos) adotam um modelo híbrido: cresceram com lojas físicas mas abraçaram o e-commerce; com renda um pouco maior (muitos já líderes familiares), equilibram busca por preço com preferências de marca. Muitos millennials têm filhos pequenos e priorizam conveniência – por isso adotaram fortemente compras online de supermercado, delivery de comida e fintechs para gestão financeira. A Geração X (43-60 anos), por sua vez, detém o maior poder de compra hoje – pesquisas nos EUA mostram que, apesar de serem apenas ~20% da população, respondem por ~30% do gasto de varejo2324. No Brasil, os Gen X (média 50 anos) costumam ser responsáveis por compras grandes da família e têm renda mais alta por estarem no auge da carreira. Eles ainda valorizam bastante a loja física (são os que mais compram em lojas tradicionais) e a confiabilidade da marca, mas também migraram para o online quando conveniente. Por fim, os Baby Boomers (60+) representam uma parcela menor do consumo total, porém significativa em categorias como medicamentos, alimentos básicos e serviços de saúde. Muitos boomers ampliaram seu uso de tecnologia na pandemia – hoje uma maioria já faz pedidos por apps de entrega ou usa PIX – mas a insegurança digital ainda os faz preferir canais tradicionais para compras maiores. Em comum a todas as gerações está a maior busca por valor: cada segmento, a seu modo, tenta “fazer o dinheiro render”, seja via pesquisas extensivas online (92% de todos os consumidores pesquisam informações e preços na internet antes de comprar25), compra em promoções e atacarejos, ou adiando compras de alto valor.
1{2 "chartType": "bar",3 "title": "Preferências de Canal por Geração (2025)",4 "data": {5 "labels": ["Gen Z", "Millennials", "Gen X", "Boomers"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Social Commerce & Apps",9 "data": [65, 45, 20, 10],10 "backgroundColor": "#ec4899"11 },12 {13 "label": "E-commerce Tradicional (Web)",14 "data": [20, 35, 30, 25],15 "backgroundColor": "#3b82f6"16 },17 {18 "label": "Loja Física",19 "data": [15, 20, 50, 65],20 "backgroundColor": "#cbd5e1"21 }22 ]23 },24 "options": {25 "scales": {26 "x": { "stacked": true },27 "y": { "stacked": true }28 }29 },30 "source": "Agregação de dados: NielsenIQ, Conversion, E-marketer"31}
Outro comportamento marcante pós-crise é a priorização de necessidade vs. desejo. Com orçamentos apertados, os consumidores aprenderam a distinguir o must-have do nice-to-have. Categorias essenciais (alimentos, higiene, contas de serviços) mantêm ou ampliam participação no orçamento, enquanto itens supérfluos são cortados primeiro. Por exemplo, no setor de FMCG (bens de consumo massivo), os brasileiros planejam gastar menos com snacks, doces (-47%) e bebidas alcoólicas/preparadas (-37%), ao mesmo tempo em que aumentam gastos com frutas/legumes (+33%) e produtos de saúde e bem-estar (+24%) – focando na alimentação básica e na saúde26. Também houve crescimento de consumo “dentro do lar” em detrimento do lazer externo: mesmo com a reabertura pós-pandemia, muitas famílias optam por cozinhar em casa e fazer programas mais baratos. Isso se refletiu numa alta de 6,7% no consumo doméstico de alimentos em 2024 vs. \+10,5% em alimentação fora (os restaurantes se recuperaram, mas o brasileiro médio ainda economiza saindo menos)27. Em suma, o consumo em 2026 é mais intencional: o brasileiro gasta onde vê necessidade ou benefício claro, e pensa duas vezes antes de comprar por impulso. Entretanto, quando decide consumir, espera uma experiência completa e conveniente – daí a crescente exigência por bom atendimento, disponibilidade omnichannel e alinhamento de valores nas marcas escolhidas. O desafio para varejistas e fabricantes é atender a esse consumidor mais seletivo, conectado e consciente, conquistando sua confiança através de preço justo, transparência e propósito autêntico, sem abrir mão da qualidade e inovação que despertem seu desejo de compra.
Transformações no Varejo
Nos últimos anos, o varejo brasileiro passou por mudanças estruturais aceleradas, e até 2026 muitas tendências antes apenas discutidas passam a ser realidade operacional. Dentre as principais transformações em curso, destacam-se: a consolidação do omnicanal de fato, o domínio dos marketplaces e novos modelos digitais (D2C, social commerce, live commerce), a redefinição do papel da loja física, o surgimento de novos formatos híbridos (dark stores, retail media in-store) e a incorporação mais profunda de tecnologia e dados em todas as etapas do negócio.
Omnichannel: da estratégia à execução. O discurso sobre omnichannelidade finalmente dá lugar a uma implementação mais concreta entre os líderes de mercado. Pesquisas da CNDL/SPC Brasil mostram que o consumidor já é naturalmente omnichannel: 95% dos compradores usam canais digitais (apps, sites) para efetuar compras, mas 82% também compram regularmente em lojas físicas28. Ou seja, praticamente todos os clientes transitam entre online e offline. Esse novo consumidor multicanal exige integração total de preços, informações e experiência – tanto que 73% costumam pedir na loja física o mesmo preço encontrado no site, esperando alinhamento, e 91% priorizam varejistas com boa reputação online (reviews, presença digital)28. Diante disso, varejistas tiveram que correr para derrubar silos internos e oferecer jornadas unificadas. Em 2026, as grandes redes brasileiras já disponibilizam serviços omnichannel básicos como click-and-collect (compre online, retire na loja), devolução em qualquer canal, catálogos unificados e programas de fidelidade integrados. Por exemplo, Magazine Luiza e Via implementaram sistemas que permitem ao vendedor em loja consultar o estoque online e vice-versa, dando alternativas caso um produto não esteja disponível localmente. No supermercado, grupos como Carrefour e GPA expandiram serviços de compra online com retirada drive-thru ou entrega expressa, integrando apps de delivery com suas lojas. Apesar desses avanços, ainda há desafios de execução: apenas cerca de 3,5% das empresas brasileiras realmente oferecem um suporte totalmente omnichannel (atendimento integrado em todos os canais) segundo benchmark da Zendesk29 – um percentual baixo em comparação global. Isso indica que muitos varejistas menores e médios ainda operam canais de forma fragmentada. As empresas líderes (normalmente as de maior porte, acima de 5 mil funcionários) é que puxam a fila, oferecendo em média 4-5 canais integrados30. Já os pequenos negócios enfrentam limitações de recursos e cultura para acompanhar. Em resumo, até 2026 o omnicanal “real” deixa de ser apenas uma visão e passa a ser um diferencial competitivo palpável no Brasil: quem implementa bem colhe maior retenção (empresas omnichannel retêm ~89% dos clientes, globalmente)31, enquanto quem falha sofre com consumidores frustrados pela inconsistência de preços e informações entre canais. A integração de estoque, preço e atendimento é o grande desafio a superar – por exemplo, inconsistências de preço ainda ocorrem e geram atrito: quando veem diferença online vs loja, 18% dos clientes acabam comprando pelo site mesmo estando na loja física e 16% conseguem negociar o desconto na hora32. Isso pressiona as redes a implementarem política de equiparação de preços e a investir em tecnologia (etiquetas eletrônicas, sistemas únicos de ERP) para evitar disparidades. Em 2026, podemos esperar que os laggards (atrasados) do omnichannel acelerem seus projetos, impulsionados tanto pela demanda do cliente quanto pela concorrência dos marketplaces.
Dominância dos Marketplaces e novos canais digitais. O modelo de marketplace consolidou-se como a principal via de crescimento do e-commerce no Brasil. Gigantes como Mercado Livre, Amazon, Shopee, Magalu e Via travaram batalhas ferozes nos últimos anos pela audiência online – e o Mercado Livre despontou com folga. Em 2025, estima-se que o Mercado Livre (Meli) movimentará R$ 183 bilhões em vendas no Brasil, quase 45% de todo o e-commerce nacional (proj. R$ 414 bi), consolidando-se com praticamente metade do mercado33. Há cinco anos, a fatia do Meli era ~25%; ou seja, dobrou a participação em meia década34, superando rivais que enfrentaram problemas de endividamento e falta de investimento tecnológico. Essa dominância foi construída em cima de logística própria eficiente, serviços financeiros integrados e inteligência de dados.
1{2 "chartType": "bar",3 "title": "Disputa pelo E-commerce: Market Share Projetado (2025)",4 "indexAxis": "y",5 "data": {6 "labels": ["Outros (Fragmentado)", "Shopee / Asiáticos", "Amazon Brasil", "Magalu / Via / Americanas", "Mercado Livre"],7 "datasets": [8 {9 "label": "Participação no GMV de E-commerce (%)",10 "data": [20, 12, 8, 15, 45],11 "backgroundColor": ["#cbd5e1", "#f97316", "#22d3ee", "#3b82f6", "#ffe600"],12 "borderRadius": 413 }14 ]15 },16 "source": "StartSe, Conversion, Relatórios de Investidores (Est.)"17}
Na prática, isso criou um ecossistema quase impenetrável, onde cada compra gera dados que retroalimentam oferta de crédito, publicidade e melhorias logísticas. Enquanto isso, concorrentes tradicionais patinaram: a Americanas colapsou em 2023, o grupo Via luta para se reestruturar e a Amazon cresce organicamente. A chinesa Shopee consolidou-se na vice-liderança em volume de pedidos, mas disputa valor com tíquete médio menor.
Além dos marketplaces, modelos D2C (Direct-to-Consumer) e Social Commerce cresceram e se profissionalizaram. Cada vez mais marcas (especialmente de moda, beleza, eletrônicos) investem em canais próprios de venda online, seja via site/app próprio, seja via lojas oficiais em marketplaces. O objetivo é reduzir dependência de intermediários e capturar dados do cliente. Em 2026, marcas consolidadas como Nike, Apple, Samsung já têm operações D2C robustas no Brasil, enquanto marcas locais surgentes utilizam redes sociais e marketplaces para alcançar o consumidor final sem passar por varejistas tradicionais. O Social Commerce, por sua vez, explodiu em popularidade: mais da metade dos consumidores digitais brasileiros (51,3%) já compraram diretamente por redes sociais em 202440. Plataformas como Instagram, Facebook (Marketplace), WhatsApp e mais recentemente o TikTok Shop tornaram-se importantes vitrines e canais de venda. O TikTok Shop, lançado no Brasil em mid-2024, exemplifica o potencial – em seus primeiros meses, creators locais combinando vídeos curtos com lives de venda chegaram a faturar entre R$ 50 e 100 mil por mês, e o GMV médio por criador dobrou de maio para junho de 202441. O Itaú BBA projeta que o TikTok Shop movimente R$ 3 bilhões no Brasil nos primeiros anos42. A lógica do social commerce é integrar descoberta, inspiração e compra numa experiência fluida, algo especialmente atraente para Gen Z. Hoje ~30% dos brasileiros dizem estar dispostos a comprar via mídias sociais em 202522. O impacto prático é que as fronteiras entre conteúdo e comércio se esvaem – redes sociais viraram shoppings, influenciadores viraram canais de venda. Isso força varejistas a repensarem marketing e canal: muitas redes já investem em live commerce (lives de vendas ao vivo no app ou site), programas de afiliados/influenciadores (ex.: o Parceiro Magalu) e em manter presença ativa nas principais plataformas sociais para não perder a atenção do cliente. No Brasil, o social commerce ainda enfrenta desafios (pagamentos integrados, logística descentralizada), mas a ubiquidade do **Pix (adotado por 76% da população43)** e o fato de sermos o 2º país que mais tempo passa online no mundo43 tornam esse formato bastante promissor para 2026 em diante.
O papel da loja física em 2026: experiência, logística e proximidade. Longe de morrer, a loja física continua central na estratégia omnichannel, mas seu papel está sendo reinventado. Pesquisas indicam que **82% dos consumidores ainda compram em lojas físicas regularmente28, sobretudo em categorias como **supermercados (69% citam como principal local de compra), lojas de shopping (49%) e comércio de rua (48%)44. Porém, a função da loja está mudando de um simples ponto de venda para um hub de experiência e serviço. Em 2026, espera-se ver lojas mais híbridas, servindo simultaneamente como showroom, centro de fulfillment, ponto de retirada e local de serviços agregados. Por exemplo, o setor de supermercado investe em transformar lojas em mini-centros de distribuição urbanos para agilizar entregas last mile – muitas unidades do Pão de Açúcar e do Carrefour já contam com áreas dedicadas ao picking de pedidos online, e formatos “dark store” (lojas fechadas ao público, 100% voltadas a atender pedidos de e-commerce) foram adotados para suportar serviços de entrega rápida. Redes de farmácias ampliaram espaços para serviços de saúde (consultórios de atendimento rápido, vacinação) e integração com telemedicina, tornando a loja um ponto de cuidado, não só de produto. No varejo de moda, o conceito de “phygital” ganha força: lojas como a Renner investiram em espelhos virtuais, APPs que o cliente usa dentro da loja para ver mais opções, e estoques unificados que permitem “endless aisle” (encomendar na loja item que chegou via e-commerce). O atendimento personalizado virou trunfo da loja física – muitas redes treinaram equipes para um papel mais consultivo, já que o cliente básico pode comprar sozinho online. Com isso, métricas de sucesso de loja mudam: além de venda por m², olha-se NPS de atendimento, taxa de conversão de retirada para compras adicionais, etc.
Outro movimento forte são formatos emergentes adaptados aos novos tempos: os atacarejos (cash & carry), por exemplo, expandiram agressivamente (Assaí, Atacadão abrem dezenas de lojas anuais) atraindo consumidores de todas as classes em busca de preço baixo e estoque. Para concorrer, supermercados tradicionais lançam linhas de marcas próprias e clubes de desconto. O atacarejo 2.0 de 2026 também investe em tecnologia – o Atacadão (Carrefour) inaugurou em 2025 uma loja modelo no RJ com mais de 200m² de telas digitais exibindo ofertas e publicidade em tempo real pelos corredores4546. Essa incorporação de Retail Media in-store (monetizar espaços físicos com mídia) gera receita adicional e melhora a experiência, destacando promoções de forma dinâmica47. Temos também as lojas autônomas e “smart stores”: ainda incipientes, mas já existem pilotos de lojas sem caixa (uso de RFID e câmeras para auto-checkout) e de lojas de vizinhança automatizadas (como máquinas de conveniência). Com a escassez de mão de obra barata e busca por eficiência, é provável que até 2026 vejamos alguma adoção maior de self-checkout, lockers de retirada e até robôs de apoio em grandes redes.
Por fim, a monetização de serviços na loja virou tendência: redes de varejo estão explorando modelos onde a loja ganha dinheiro não só vendendo mercadoria, mas vendendo serviços e dados. Um exemplo é a explosão das Retail Media Networks – supermercados e magazines vendendo espaço para anúncio tanto em seus canais digitais quanto nas lojas (totens, TVs internas). Como citado, o Atacadão implementou telões digitais em gôndolas para as marcas anunciarem no PDV4546. Sites e apps de varejistas também agora exibem anúncios de fabricantes (banner, search patrocinado), criando uma fonte de margem alta. Estimativas indicam que na América Latina o investimento em retail media deve triplicar entre 2025 e 202839, e players como Mercado Livre e Magalu querem abocanhar essa fatia. Por sinal, o Mercado Livre fechou parceria até para distribuir anúncios em vídeo no Disney+ na região, ampliando o alcance de sua rede de anúncios além dos próprios ativos48.
1{2 "chartType": "line",3 "title": "Aposta em Retail Media: Projeção de Investimento (LatAm)",4 "data": {5 "labels": ["2024", "2025", "2026 (Proj.)", "2028 (Est.)"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Investimento em Retail Media (US$ Bilhões)",9 "data": [1.5, 2.2, 3.8, 6.0],10 "backgroundColor": "rgba(249, 115, 22, 0.2)",11 "borderColor": "#f97316",12 "fill": true,13 "tension": 0.414 }15 ]16 },17 "source": "eMarketer, IAB Brasil"18}
Isso mostra que os grandes varejistas se tornaram também empresas de mídia e tecnologia, monetizando seus dados de consumidores (respeitando privacidade) para oferecer segmentação publicitária fina aos fornecedores. Em suma, em 2026 o varejo brasileiro bem-sucedido será aquele multifacetado: vende produtos, vende serviços financeiros, vende mídia, e engaja o cliente em múltiplos canais – loja, web, social – de forma integrada. A loja física não desaparece, mas assume novas funções no centro dessa estratégia omnichannel, complementada por plataformas digitais e uma robusta camada de tecnologia e dados por trás.
Tecnologia, Dados e Inteligência Artificial no Varejo
O ano de 2026 marca a separação entre hype e realidade na adoção de tecnologia e IA pelo varejo brasileiro. Após alguns anos de muito buzzwords, vemos aplicações práticas de inteligência de dados impulsionando ganhos concretos em eficiência e receita para quem investiu corretamente. Em primeiro lugar, o uso de IA e analytics para personalização e previsão de demanda tornou-se comum nas maiores empresas. Sistemas de recomendação personalizados – semelhantes aos da Amazon – já operam nos sites da Magalu, Amazon Brasil, Mercado Livre e outros, aumentando o cross-sell e a conversão conforme aprendem preferências do usuário. Ferramentas de pricing dinâmico também ganharam espaço no e-commerce: varejistas online ajustam preços diariamente ou em tempo real conforme estoque, concorrência e elasticidade. Isso é particularmente visível em marketplaces – vendedores usando algoritmos para repricing visam ganhar a Buy Box no Mercado Livre ou Amazon. Em segmentos como passagens aéreas e hotéis, a precificação dinâmica via IA já é padrão, e no varejo de bens de consumo começa a acontecer em promoções personalizadas (por exemplo, oferecer descontos específicos via app conforme o perfil de cada cliente).
Na gestão de estoque e demanda, praticamente todos os grandes players agora usam modelos preditivos (machine learning) para previsão de vendas e otimização de inventário. Isso ajudou a reduzir rupturas e excesso de estoque, crucial num período de demanda incerta. Redes de moda e supermercado investiram em demand sensing – analisando dados em tempo real (clima, buscas online, menções em redes) para ajustar imediatamente pedidos e alocação de produtos por loja. Com IA, conseguem prever, por exemplo, aumentos súbitos na busca por determinado produto e movimentar estoque antes da concorrência. No subsetor de moda, algumas empresas adotaram IA para prever tendências e planejar coleções com base em análise de redes sociais e comportamento online, diminuindo erros de aposta.
Automação operacional é outra frente em destaque: a logística do e-commerce foi amplamente automatizada para ganhar velocidade. Em 2024, o Mercado Livre inaugurou centros de distribuição com robôs de separação de pedidos, sendo pioneiro na escala local49. Amazon já emprega robôs em seus CDs no Brasil para mover produtos. Os maiores operadores logísticos contam com esteiras inteligentes, classificadores automáticos e usam software roteirizador com IA para otimizar rotas de entrega – essencial para viabilizar serviços como entrega no mesmo dia que Amazon e Mercado Livre expandiram para capitais (em 2025 a Amazon anunciou entrega em até 3 horas em algumas cidades, graças a centros urbanos e algoritmos de roteirização)50. Nas lojas físicas, a automação aparece em self-checkouts, totens de pedido (fast-food) e na análise de vídeo por IA para segurança e monitoramento de prateleiras (preventing out-of-stock). Embora no Brasil esses recursos ainda estejam em adoção inicial por questões de custo, algumas redes de supermercados testam câmeras inteligentes que alertam funcionários quando falta produto na gôndola ou para detectar movimentações suspeitas. Chatbots e assistentes virtuais também amadureceram: a Lu do Magalu, por exemplo, evoluiu de apenas responder dúvidas para efetivamente vender produtos por chat, usando processamento de linguagem natural para entender pedidos. Até pequenos e-commerces podem hoje plugar chatbots via APIs do WhatsApp, democratizando o atendimento 24/7.
A monetização de dados e Retail Media já citada é uma das aplicações mais lucrativas de tecnologia no varejo atual. Com a desvalorização dos dados de terceiros (fim dos cookies etc.), os varejistas sentam em um tesouro de dados first-party sobre comportamento de compra. Mercado Livre, Carrefour, GPA, Magalu – todos lançaram unidades de negócio voltadas a vender soluções de mídia e insights aos fornecedores. Redes de supermercados historicamente forneciam dados de vendas para Nielsen e Kantar; agora algumas criaram suas próprias plataformas para que a indústria acesse dashboards de vendas em tempo real e compre espaço em meios do varejista (ex: encarte digital no app, anúncio segmentado para quem comprou item X). O CFO do Mercado Libre afirmou que “as condições estão dadas para aproveitarmos essa oportunidade”, prevendo triplicar a publicidade digital na plataforma nos próximos anos5152. Eles já oferecem não apenas anúncios de produto patrocinados dentro do site, mas parcerias off-site (como inserir vídeos de anunciantes no Disney+ via integração)48. Essa convergência entre varejo e mídia é tendência global – nos EUA, Amazon Ads fatura mais de US$ 30 bi – e no Brasil até 2026 deverá se firmar como fonte importante de margem. Para os varejistas médios e pequenos, a lição é: mesmo que não montem uma “rede de mídia” própria, precisam aproveitar dados para melhorar negociações e eficiência. Por exemplo, muitos já usam ferramentas de sortimento otimizado por IA, identificando quais SKUs rodam melhor em cada região e loja, orientando decisão de merchandising. Outros vendem seus dados de forma agregada via parcerias (ex.: empresas de bens de consumo comprando insights de startups de data analytics que coletam dados de diversos lojistas menores). Em resumo, dados viraram ativo estratégico no varejo brasileiro – quem consegue coletar, analisar e usar ganha vantagem competitiva, seja para personalizar ofertas, otimizar operações ou gerar receitas auxiliares.
Importante notar que a IA generativa (tipo ChatGPT) também começou a encontrar usos no varejo, porém de modo mais discreto. Em 2025, algumas empresas adotaram ferramentas de geração de conteúdo para escrever descrições de produto, responder dúvidas frequentes automaticamente e até criar campanhas de marketing personalizadas. Por exemplo, uma rede de moda pode usar IA para gerar textos de e-mail marketing adaptados ao perfil de cada cliente (destacando produtos que ele tende a gostar). Há experiências com IA em imagens – geração de modelos vestindo roupas para e-commerce, evitando necessidade de fotos reais para cada variação. Contudo, essas aplicações ainda estão em piloto e envolvem cuidados com supervisão humana, para evitar erros ou comunicações enviesadas. Até 2026, provavelmente a IA generativa será mais utilizada nos bastidores (automação de conteúdo, tradução de informações de produto, atendimento via voicebots) do que como algo visível ao consumidor final.
Em termos de adoção tecnológica geral, o varejo brasileiro tem maturidade desigual: as grandes organizações investiram pesado em TI nos últimos anos (muitas têm times internos de ciência de dados, laboratórios de inovação e aceleradoras de startups), enquanto pequenas empresas ainda engatinham no básico (há milhares de micro varejistas que mal possuem um sistema de gestão ou vendas online).
1{2 "chartType": "bar",3 "title": "Abismo Digital: Adoção de Tecnologia por Porte (Est. 2025)",4 "data": {5 "labels": ["ERP/Gestão Básica", "Venda Online (E-comm/Zap)", "CRM Estruturado", "IA & Advanced Analytics"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Pequenos/Médios Varejistas",9 "data": [65, 45, 20, 5],10 "backgroundColor": "#94a3b8"11 },12 {13 "label": "Grandes Varejistas",14 "data": [99, 95, 85, 70],15 "backgroundColor": "#1e293b"16 }17 ]18 },19 "source": "Sebrae, SBVC - Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo"20}
A tendência é de democratização via SaaS: surgiram muitas soluções na nuvem voltadas a pequenos lojistas – por exemplo, plataformas de e-commerce plug and play, sistemas de gestão baratos, ferramentas de CRM e disparo de promoções via WhatsApp, etc. Isso permite que negócios menores adotem um pouco de tecnologia sem altos investimentos upfront. Além disso, Open Finance e outras iniciativas podem integrar esses pequenos no mundo dos dados (um tópico que abordaremos a seguir na parte de pagamentos e crédito). Em suma, o varejo 2026 é data-driven: decisões cada vez mais orientadas por insights de dados e IA, seja para definir preço, sortimento, campanha ou localização de loja. Aqueles líderes que conseguirem equilibrar o uso intensivo de tecnologia com a sensibilidade humana (ex.: não deixar o atendimento robotizado demais, não cruzar a linha da privacidade do cliente) estarão em posição privilegiada para aumentar eficiência e satisfazer um consumidor que espera interações ágeis e relevantes.
Meios de Pagamento e Crédito
As formas de pagamento e as condições de crédito no Brasil passaram por transformações profundas e até 2026 continuarão evoluindo, afetando diretamente o comportamento de compra. O destaque dos últimos anos é, sem dúvida, o PIX – o sistema de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central. Em apenas 5 anos, o Pix se tornou onipresente: mais de 76% dos brasileiros já utilizam Pix para transferências ou pagamentos43, tornando-o um meio de pagamento básico tanto no varejo físico quanto online. Para o consumidor, o Pix oferece agilidade (transferência em segundos), disponibilidade 24/7 e, importante, custo zero – o que o torna preferível a boletos ou mesmo cartões de débito em muitas situações. No e-commerce, o Pix rapidamente ganhou espaço, pois une a instantaneidade do cartão à ausência de taxas altas: muitas lojas online oferecem desconto (às vezes ~5%) para pagamento via Pix em vez de cartão, repassando a economia das taxas de adquirência. Até pequenos comerciantes e autônomos aderiram – é comum no Brasil ver até camelôs aceitando Pix via QR Code. Em 2026, estima-se que o Pix responderá por uma fatia ainda maior das transações.
1{2 "chartType": "pie",3 "title": "Share de Pagamentos no E-commerce (2026 Proj.)",4 "data": {5 "labels": ["Cartão de Crédito", "Pix Instantâneo", "BNPL / Pix Parcelado", "Boleto/Outros"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Meios de Pagamento",9 "data": [48, 35, 12, 5],10 "backgroundColor": ["#1e293b", "#22c55e", "#8b5cf6", "#cbd5e1"]11 }12 ]13 },14 "source": "Banco Central, Febraban, Projeções de Mercado"15}
A disseminação do Pix também reduziu a dependência do dinheiro vivo e deve abrir caminho para Open Finance em pagamentos. Para o varejo, o Pix representou redução de custos (menos taxas) e maior conversão, embora concorra com a "compra por impulso" parcelada no cartão.
O parcelamento sem juros no cartão sempre foi pilar do varejo nacional, permitindo ao consumidor comprar bens de maior valor pagando em várias vezes. Contudo, com a escalada dos juros nos últimos anos e o superendividamento, houve mudanças nesse hábito. Os emissores de cartão ficaram mais cautelosos em conceder limites altos, e muitas redes varejistas diminuíram o número de parcelas sem juros ofertadas (a não ser em promoções específicas). Em 2026, os brasileiros continuam parcelando, mas de forma mais moderada: observa-se um aumento das vendas em menos parcelas (2x-3x), pois o consumidor está evitando alongar dívidas e também porque algumas lojas passaram a repassar juros em parcelamentos muito longos. Além disso, emergiu no Brasil a tendência global do BNPL (Buy Now, Pay Later) – embora aqui isso soe familiar, já que nosso crediário e parcelado tradicional são formas de BNPL. Fintechs como Klarna, Zip e mesmo players locais (Mercado Pago, Ame) ofertam parcelamento instantâneo no checkout online, sem cartão de crédito, aprovando na hora através de análise via Open Finance. Esses serviços competem com o cartão: por exemplo, o Mercado Livre oferece seu próprio crédito parcelado para compras, o Mercado Crédito, inclusive para quem não tem cartão. Já a Americanas (antes da crise) promovia o Ame (carteira digital) com parcelamento. Em 2026, espera-se que o parcelamento via fintechs cresça, atendendo principalmente consumidores jovens sem cartão ou negativados, desde que consigam precificar bem o risco.
Falando em risco, o crédito está mais restrito. Como visto, recordes de inadimplência forçaram bancos a apertar concessões. A taxa de juros do rotativo do cartão superou 400% a.a. – virtualmente impagável – levando milhões a um ciclo de dívida. Isso criou um “novo normal” de compras à vista ou no débito para muitos consumidores de baixa renda: eles passaram a evitar usar o cartão de crédito para não cair no rotativo. Observa-se maior uso de débito e Pix até para bens que antes eram parcelados. Por exemplo, alguns varejistas de móveis e eletros relataram aumento de clientes optando por pagar à vista (aproveitando descontos) ou em 1-2 parcelas no Pix Garantido (serviço que algumas fintechs oferecem, em que a fintech paga à vista para a loja e o cliente reembolsa a fintech parcelado). O crediário tradicional (carnês de loja) voltou a ter alguma demanda, principalmente nas redes que trabalham com classes C e D, pois conseguem aprovar clientes que bancos recusam. Redes como Casas Bahia, Magazine Luiza, Marisa continuaram com carnês ou cartões de loja com análise própria, porém correm risco alto: muitas reportaram aumento de PDD (perdas) em 2023-25 devido à inadimplência.
Uma mudança regulatória importante que afetará 2026 é a evolução do Open Finance/Open Banking. Com a implementação completa do Open Finance no Brasil, os consumidores podem permitir que seus dados financeiros (histórico de crédito, contas, renda) sejam compartilhados entre instituições. Isso deve aumentar a concorrência no crédito. Por exemplo, a partir de 2026 entra em vigor a portabilidade de crédito facilitada via Open Finance, que permitirá a um cliente transferir um empréstimo de um banco para outro em apenas 3 dias se conseguir taxa melhor5354. Essa agilidade pode pressionar para baixo os juros de empréstimo pessoal, consignado e financiamento, beneficiando quem tem bom histórico. Além disso, fintechs e até varejistas podem usar os dados abertos para ofertar crédito sob medida. Varejistas grandes podem virar “quase-bancos”: já vimos o Magalu adquirir banco digital (Hub Fintech) e Via lançar a banQi, todos visando ofertar conta, cartão e empréstimo aos clientes com base nos dados de compras. Com Open Finance, um varejista pode, por exemplo, checar o histórico bancário de um cliente (com consentimento) e decidir oferecer parcelamento diferenciado ou seguros. Espera-se também crescimento de ofertas de crédito ligado ao consumo – como crédito consignado privado (desconto em folha de salários de empresas privadas, que o governo estimulou em 2023-24)55 e microcrédito produtivo.
No tocante a meios de pagamento físicos, a carteira digital e pagamentos por aproximação já são comuns em 2026\. Na esteira do Pix, serviços como Apple Pay, Google Pay, Samsung Pay etc. ganharam mais adeptos, até pela conveniência e segurança (tokenização). Os cartões contactless (NFC) também se disseminaram; pós-pandemia, muitos consumidores adotaram o “aproxime e pague” pela higiene e rapidez – hoje praticamente todas as maquininhas no varejo aceitam NFC, e aproximadamente 60% das transações presenciais com cartão já são por aproximação. Isso melhora a experiência em lojas (menos fila). Ademais, o WhatsApp Pay finalmente deslanchou em pagamentos peer-to-peer, e em 2025 obteve autorização para funcionar também para pagamentos a empresas (merchant). Até 2026, possivelmente veremos o WhatsApp (que é popularíssimo no Brasil) se tornar também uma plataforma de pagamento e comércio – imagine poder pagar uma loja pequena direto na conversa pelo WhatsApp com Pix integrado. Esse é um canal promissor principalmente para pequenos varejos e vendedores informais.
Em resumo, no ecossistema de pagamentos 2026, o consumidor brasileiro terá opções mais diversificadas e digitais, porém continuará valorizando o velho parcelamento – apenas com critérios mais rigorosos. Para os varejistas, adaptar-se significa: oferecer múltiplas formas de pagamento (Pix, crédito, carteiras, BNPL), facilitar o checkout omnichannel (one-click buy nos apps, por exemplo) e gerenciar com cautela seu braço financeiro. A oferta de crédito próprio pode ser estratégica para fidelizar (vide Cartão Casa Bahia, etc.), mas num ambiente de calotes é preciso robustez analítica para não ter prejuízo. Tecnologias de IA e dados de Open Finance serão aliadas na concessão de crédito mais inteligente, incluindo avaliar risco em tempo real na hora da venda. Em contrapartida, quem negligenciar oferecer meios de pagamento modernos pode perder vendas – por exemplo, jovens que preferem Pix a cartão podem abandonar carrinhos se não houver Pix no e-commerce. E a agilidade no checkout é crucial: estima-se que cada segundo a menos na fila ou no processo de pagamento aumenta a satisfação e a chance de recompra. Portanto, vencerá o varejista que tornar o pagamento invisível (como a Amazon fez lá fora com Amazon Go) ou pelo menos indolor – rápido, confiável e adequado ao perfil de cada cliente (parcelando quando necessário, dando desconto à vista quando preferível). O panorama é de maior inclusão financeira via tecnologia, mas também de maior disciplina no crédito.
Cenários Prospectivos para 2026
Diante da volatilidade econômica, traçamos três cenários estratégicos para o varejo brasileiro. A incerteza exige que executivos preparem suas operações para pivotar entre a sobrevivência do cenário conservador e a expansão agressiva do otimista.
1{2 "chartType": "radar",3 "title": "Radar de Planejamento 2026: Comparativo de Cenários",4 "data": {5 "labels": ["Crescimento do PIB", "Controle da Inflação", "Acesso ao Crédito", "Confiança do Consumidor", "Investimento em Expansão", "Rentabilidade Varejo"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Cenário Conservador",9 "data": [2, 3, 2, 3, 2, 4],10 "backgroundColor": "rgba(239, 68, 68, 0.2)",11 "borderColor": "#ef4444",12 "borderWidth": 213 },14 {15 "label": "Cenário Base (Provável)",16 "data": [5, 6, 6, 6, 6, 6],17 "backgroundColor": "rgba(59, 130, 246, 0.2)",18 "borderColor": "#3b82f6",19 "borderWidth": 220 },21 {22 "label": "Cenário Otimista",23 "data": [9, 9, 9, 9, 9, 8],24 "backgroundColor": "rgba(16, 185, 129, 0.2)",25 "borderColor": "#10b981",26 "borderWidth": 227 }28 ]29 },30 "options": {31 "scales": {32 "r": {33 "angleLines": { "display": true },34 "suggestedMin": 0,35 "suggestedMax": 1036 }37 }38 },39 "source": "Matriz Estratégica JP Insights"40}
1{2 "chartType": "table",3 "title": "Matriz de Impacto Estratégico: Varejo 2026",4 "data": {5 "labels": ["Economia", "Consumidor", "Varejo Grande", "Varejo Peq/Médio", "Estratégia Chave"],6 "datasets": [7 {8 "label": "Cenário Conservador (Pessimista)",9 "data": [10 "PIB ~0-1%, Juros >12%, Inflação alta. Estagnação.",11 "Endividado, apenas compra o essencial. Trade-down massivo.",12 "Foco total em eficiência e caixa. Consolidação via M&A de quebrados.",13 "Alta mortalidade. Sobrevive quem tem nicho fiel ou custo muito baixo.",14 "Resiliência: Cortar custos, automação, preços baixos."15 ],16 "backgroundColor": "#ef4444"17 },18 {19 "label": "Cenário Base (Moderado)",20 "data": [21 "PIB ~1.5-2%, Juros 10-11%, Inflação na meta. Estabilidade.",22 "Cauteloso, mas retoma compra de desejos pontuais.",23 "Retomada de expansão seletiva. Investimento em inovação.",24 "Espaço para recuperação. Parcerias e digitalização essencial.",25 "Competitividade: Melhorar mix, fidelizar, investir em dados."26 ],27 "backgroundColor": "#3b82f6"28 },29 {30 "label": "Cenário Otimista",31 "data": [32 "PIB >3%, Juros <9%, Dólar estável. Ciclo virtuoso.",33 "Otimista, volta a consumir duráveis e financiar compras.",34 "Expansão agressiva, omnicanalidade total, novos formatos.",35 "Florescimento de novos negócios e franquias.",36 "Aceleração: Capturar novos clientes, lançar produtos, inovar."37 ],38 "backgroundColor": "#10b981"39 }40 ]41 },42 "visualizationHint": "Tabela comparativa com 3 cenários",43 "source": "Matriz Estratégica JP Insights"44}
Implicações Estratégicas Gerais: Diante desses cenários, líderes empresariais devem manter planos flexíveis. No pior caso, foco em eficiência operacional, renegociação de custos e canais de baixo custo (digital); no caso base, buscar ganhos de mercado e avanços incrementais (fidelização, melhoria de mix) aproveitando a estabilidade; e no melhor caso, acelerar expansão, inovar fortemente e capturar novos clientes surfando a onda de crescimento. Em qualquer cenário, porém, algumas constantes permanecem: o consumidor brasileiro de 2026 continuará exigente por valor, cada vez mais omnichannel e conectado, e atento ao propósito das marcas. Varejistas grandes, médios ou pequenos, todos precisam colocar o cliente no centro das decisões, usando dados e sensibilidade para entendê-lo. As empresas que combinarem resiliência financeira de curto prazo com visão estratégica de longo prazo estarão preparadas para não apenas sobreviver, mas prosperar no futuro do varejo brasileiro.
Referências
Dados e insights foram compilados de fontes como IBGE (renda, inflação), CNC (endividamento recorde das famílias)56, pesquisas de consumo NielsenIQ e McKinsey1517, relatórios do setor varejista (CNDL/SPC sobre omnichannel)28, análises de mercado (InfoMoney, CNN, StartSe)133, além de exemplos práticos de empresas (cases do Mercado Livre, Atacadão, Magalu) e tendências globais adaptadas ao contexto brasileiro. Todas as estatísticas e citações específicas estão referenciadas ao longo do texto, indicando a origem exata de cada informação para aprofundamento. Em suma, este estudo uniu dados quantitativos atuais, sinais emergentes e análise qualitativa para pintar um panorama completo do varejo e consumo no Brasil em 2026, servindo como guia para executivos, investidores e líderes de produto na tomada de decisões estratégicas. 356
Links
1 2 55 PIB 2026: O ano em que a economia ‘não desaba, mas também não decola’
3 4 14 Renda per capita bate recorde em 2024, aponta IBGE \- Times Brasil \- Licenciado Exclusivo CNBC
5 6 7 Endividamento sobe pelo terceiro mês e atinge recorde em outubro, diz CNC | CNN Brasil
8 9 10 11 12 Com interior em alta, Nordeste alcança R$ 1,5 trilhão em consumo e supera Sul
13 IBGE divulga rendimento domiciliar per capita 2024 para Brasil e unidades da federação | Agência de Notícias
15 16 22 26 56 Consumo no Brasil: cautela e mudanças em 2025
https://nielseniq.com/global/pt/insights/education/2024/mid-year-consumer-outlook-brasil/
17 18 O consumidor brasileiro hoje \- 2024 \- Sentimento do consumidor
http://sentimentodoconsumidor.mckinsey.com/
19 20 Por que o propósito de marca é o maior diferencial das empresas no século XXI \- Mundo do Marketing
21 Como cada Geração consome no Brasil. Entenda a nova jornada de ...
https://www.conversion.com.br/blog/pesquisa-geracoes-e-consumo/
23 24 50 Millennials e Gen Z chamam atenção, mas Geração X é quem mais gasta | Fast Company Brasil
25 28 32 44 CNDL \- Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas
27 Alimentação fora do lar cresce acima da inflação, mas Mtrix indica ...
29 30 31 Futuro da estratégia omnichannel no varejo: veja os desafios\!
https://www.zendesk.com.br/blog/futuro-estrategia-omnichannel/
33 34 35 36 37 Mercado Livre deve dominar quase 50% do e-commerce no Brasil em 2025
38 E-commerce no Brasil \[2025\]: market share, dados e sites
https://www.conversion.com.br/blog/relatorio-ecommerce-mensal/
39 48 51 52 Mercado Libre sets sights on retail media | WARC | The Feed
https://www.warc.com/content/feed/mercado-libre-sets-sights-on-retail-media/en-GB/9881
40 41 42 43 Social commerce: o impacto do TikTok Shop nas vendas online \- Pericoco
https://pericoco.com.br/social-commerce-o-impacto-do-tiktok-shop/
49 Shopee acirra disputa com Mercado Livre no e-commerce brasileiro
53 O que 2026 reserva para as fintechs; veja previsões \- Finsiders Brasil
54 BC confirma portabilidade de crédito no Open Finance \- Times Brasil